Todo corpo é uma história onde se integram movimento, pensamento, emoção e sentimento. Como esse é o terceiro texto da série sobre a visão de Joseph Pilates na questão da integração corpo e mente, farei um breve resumo do que foi abordado nos textos anteriores aqui e aqui.
No ocidente, influências teóricas, filosóficas e teológicas rasgaram a condição humana em duas metades que, para eles, pouco se comunicavam: o corpo e a mente. Joseph Pilates se colocou contra essa tradição, afirmando a indissociabilidade entre o corpo e a mente e fez dessa ideia um dos seus pilares para a mudança de paradigma sobre o conceito de saúde. Joseph Pilates entendia que o movimento consciente era o melhor caminho para a integração de funções físicas e psicológicas.
Joseph desenvolveu todo o seu trabalho a partir do pressuposto de que a base para a conquista de estados afetivos positivos reside em uma boa postura corporal. A tarefa de fundamentar cientificamente o método Pilates permanece como um desafio para todo aquele que dá continuidade ao seu trabalho. Dessa forma, julgo ser legítima a ação de recorrer a outros autores para refutar ou validar os seus argumentos, estando seguro de que este é o melhor caminho para sedimentarmos o Pilates como uma atividade de relevância, no âmbito da saúde, para nossa sociedade.
Sendo assim, sobre o tópico três do resumo acima, farei algumas considerações baseadas na leitura da obra de Moshe Feldenkrais (1904) – Consciência pelo Movimento.
Muitos sistemas foram inventados com o propósito de aperfeiçoamento humano, seja ele no campo da saúde, do comportamento, ou da moral. Os sistemas filosóficos propunham mudanças a partir do pensamento e do conhecimento, às religiões propunham mudanças a partir de um sistema de valores que envolviam o desenvolvimento espiritual. Ambos os sistemas, muitas vezes, viam o corpo como o inimigo a ser vencido para que o homem pudesse aperfeiçoar-se. E o método Pilates, como se coloca e o que propõe? Observe:
“A contrologia é a completa coordenação do corpo, da mente e do espírito. Por meio da contrologia, você pode, primeiramente, adquirir completo controle do seu próprio corpo e então, por meio da repetição adequada de seus exercícios, você pode, gradual e progressivamente, atingir a associação do ritmo natural e da coordenação de todas as suas atividades subconscientes.” (Pilates e Miller – 1945)
Repare que o Sr. Pilates, quando define o método, pretende que ele seja um veículo de integração. Mas como exatamente? Pilates justifica sua afirmação propondo que ao despertar milhares de células musculares ativamos novas áreas cerebrais e estimulamos o funcionamento da mente. Observou ainda que, pelo movimento, estimulamos o aporte sanguíneo no cérebro e o desenvolvimento de novas células cerebrais.
É claro que essas informações são facilmente comprovadas pela ciência atual, no entanto, elas ainda não são suficientes para justificarmos um nível de integração subconsciente que envolve sentimentos e emoções. Pilates não deixa claro como isso pode ocorrer, sendo assim, temos a necessidade de recorrer a outros autores.
Para Feldenkrais (1904), todo comportamento é um complexo de músculos mobilizados, sensações, sentimentos e pensamentos. Tudo o que fazemos, em cada momento particular, é integrado em áreas associativas do cérebro inter-relacionando padrões neurais da posição do corpo no espaço, do sentimento de fundo presente e do conteúdo do pensamento naquele momento, ativando dessa maneira certo padrão (hábito). A pergunta importante a ser colocada aqui é: a mudança no padrão de como nos movimentamos, assim como da nossa postura, pode mudar um padrão emocional? Veja o que diz Feldenkrais:
“Uma mudança fundamental na base motora, dentro de cada padrão simples de integração, quebrará a coesão do todo e, desse modo, o pensamento e o sentimento perdem sua sustentação nas rotinas estabelecidas. Nestas condições, é muito mais fácil efetuar mudanças no pensamento e nos sentimentos, porque o componente muscular, através do qual o pensamento e o sentimento alcançam a nossa consciência, mudou e não mais exprime os padrões familiares preexistentes. O hábito perdeu seu maior suporte – o dos músculos – e se tornou mais acessível à mudança.” (Feldenkrais, 1904 -pg. 60)
Sabemos que mudar um hábito ou um comportamento nem sempre é fácil, muitas vezes estamos fixados em um padrão emocional, sentimental e corporal. O primeiro passo para uma mudança é tomar consciência do que acontece dentro de nós, e isso só pode ser possível quando reconhecemos um padrão de organização muscular e corporal que reflete emoções e sentimentos. Ora, se estamos conscientes dos meios utilizados para organização de uma expressão, também podemos discernir o estímulo que a desencadeia e, dessa forma, interferir na resposta que podemos dar, isso chama-se consciência corporal ampliada.
É muito importante que o Professor de Pilates entenda, que quando tocamos nossos alunos, não são apenas ossos e músculos que estão sendo tocados, todo corpo é um grande baú repleto de história. A função de um professor de Pilates, entre outras, é educar o seu aluno, por meio da técnica e do movimento consciente.
Alexandre Luzzi
Educador físico (Cref: 025495)
Sócio proprietário da Escola de Pilates clássico TAI KEN