Pilates para Bailarinos 

Pilates: a melhor atividade complementar para os Bailarinos. 

O conteúdo desta matéria relata a minha experiência pessoal como profissional da área da Dança há 29 anos e Instrutora de Pilates há 12 anos. 

Tudo isso dentro do que vivenciei, inspirei, exalei e senti quando o movimento integrado da Dança e do Pilates se amalgamaram como propostas complementares na minha vida. 

O meu nome é Gabriela Andrezzo, sou bailarina e ademais instrutora de Pilates, sendo 3° Geração de Lolita San Miguel pela Alves Pilates. Ministro o curso formação em Pilates em São Paulo. 

Venho então, por meio desta matéria, inspirar os inquietos na investigação sobre diferentes visões acerca do corpo e do movimento. 

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 Pilates e a Dança

Ambas atividades possuem um conceito holístico que envolvem 3 pilares, corpo, mente e espírito, mas divergem nos hábitos em relação a prática. 

E é neste ponto onde o Pilates promove uma reflexão e um reequilíbrio. De tal forma que fazem  com que as ideias cultuadas pelos Bailarinos na busca pela excelência dos movimentos sejam restabelecidas. 

Os bailarinos são exímios portadores de consciência corporal e ademais o coração e a respiração são o berço do ritmo que compõe seus movimentos. Mas vivem passando seus limites e dessa forma anulando sua eficiência física… 

E o método Pilates se revelou ao mundo da Dança de forma transformadora. Capaz de reeducar essa visão extremista em relação a busca pela perfeição dos movimentos a qualquer custo. 

 Assim, os bailarinos praticantes de Pilates reavaliaram conceitos sobre os excessos exigidos ligados a cultura dos profissionais da Dança. 

E encontraram no Pilates a fonte de equilíbrio que lhes faltava. 

Na busca por bons resultados, ultrapassando limites para se aproximarem da perfeição técnica, os bailarinos acabavam encurtando suas carreiras devido ao número de lesões. Elas são decorrentes das insistências em corpos muitas vezes sem a devida competência para administrar excessos e sobrecargas. 

 O método Pilates e os bailarinos 

Com o Método Pilates os bailarinos passaram a compreender que muitas vezes menos é mais! 

Isso fez com que eles pudessem de fato desenvolver uma nova consciência sobre seus limites. E dessa forma ter maior segurança durante os ensaios e as performances nos palcos. 

A saber: o método de Joseph teve uma ascensão considerável atuando junto aos bailarinos. 

Grande parte do elenco da Cia Martha Graham, New York City Ballet e outras Cia´s de Dança, foram alunos de Joseph Pilates. 

Após a morte de Joseph, praticamente todos os bailarinos que eram treinados por ele começaram a ensinar seu método. Graças aos bailarinos, o método sobreviveu até os dias de hoje podendo, desse modo, ser aplicado de forma eficiente, de acordo com as necessidades do corpo de cada um dos seus praticantes. 

Foram, alguns deles: Romana Kryzanowska, Carola Trier, Lolita San Miguel, Kathy Grant, Robert Fitzgerald, Ron Fletcher, entre outros. 

Pilates: reabilitando e prevenindo lesões dos bailarinos 

Um dos principais benefícios do Pilates para bailarinos é, em primeiro lugar, a possibilidade de prevenir lesões através da releitura sobre seus conceitos acerca do movimento. 

A método Pilates apresentou aos bailarinos possibilidades de uma vida em movimento mais saudável e duradoura, afinal, na dança o potencial de desempenho diminui com o avanço do tempo, seja não só pelo comprometimento das funções bem como pela idade. 

Um novo olhar sobre a dinâmica de uma nova técnica fez com que os bailarinos pudessem entender seus limites e encontrassem suas melhores formas para se conectarem com seus corpos de modo que pudessem se energizar e não se desgastar ou ainda lesionarem-se. 

A Dança está entre os polos do relaxamento total e da tensão total. 

O entendimento sobre a diferença entre ação e tensão durante a execução dos movimentos fez com que os bailarinos percebessem a necessidade de desconstruírem antigos conceitos para reconstruirem uma nova consciência ligada a um método restaurador com eficiência a longo prazo. Na prática do Pilates a qualidade do movimento não é regulada pelo grau, quantidade de força ou intensidade e sim pela efetividade. 

A palavra dança etimologicamente deriva do grego tanz – tensão. Uma tensão que se revela e se resolve por meio de um fluxo contínuo que se manifesta em tudo que está vivo e à sua volta. 

Independente do segmento, cada indivíduo possui um movimento único e dentro deste processo de individualização o reconhecimento de si como parte de um todo nem sempre é um caminho trilhado sem dor. 

No pain no gain 

A frase: No pain, no gain (Sem dor, sem resultados) ainda é um lema cultuado pelos bailarinos para se alcançar a excelência profissional. 

Grandes coreógrafos como George Balanchine, em suas coreografias explosivas o ideal era “estar pronto para o risco”. 

Um preço alto a ser pago que induz bailarinos a se encaixarem fisicamente nos padrões estipulados pelo segmento, de modo a suportarem o estresse, o sofrimento físico e muitas vezes emocional. 

Os movimentos que constroem a técnica da Dança Clássica exigem físicos ideais. Uma visão que eu desaprovo por acreditar que todos, sem exceção, podem se desenvolver em qualquer segmento desde que sintam afinidade e tenham determinação, mas, no caso da Dança Clássica, não se trata apenas de um padrão estético opressor onde o físico magro, longilíneo, alongado e sem curvas seja o privilegiado. Trata-se de corpos com características inatas e habilidades necessárias que facilitarão o desenvolvimento técnico do bailarino. Tudo isso sem que o mesmo violente seu corpo por conta das suas limitações ou incompatibilidade física. 

Retificações, encurtamentos, joelho varo, pé plano valgo, en dedans (rotação interna de quadril) são condições anatômicas que não favorecem a técnica da Dança Clássica. E ademais fazem com que o bailarino sofra e muitas vezes se lesione durante os treinos na busca pela aproximação do movimento ideal. 

A grande verdade é que todos, sem exceção, independentemente de terem físicos compatíveis ou incompatíveis com a técnica da Dança Clássica, acabam por se lesionarem em nome dos excessos exigidos.      

O método Pilates e sua proposta 

 A filosofia que envolve o método Pilates vem com uma proposta de autoconhecimento restaurativa, tolerante e acolhedora. Sendo assim, vai muito além da busca por uma perfeição técnica através da repetição dos movimentos ideais como acontece com a dança. É preciso que haja uma desconstrução cultural sobre valores onde a busca pela eficiência muscular seja maior do que a busca pela potência dos corpos em movimento. 

A expressão do autogoverno de um corpo livre é justamente o que aprisiona os bailarinos as suas lesões. Pois a emoção que envolve o artista no momento da entrega em cena junto com os exercícios repetitivos, prolongados, que recrutam sempre os mesmos músculos durante os ensaios intermináveis, fazem com que os bailarinos ultrapassem os limites dos seus corpos e é neste momento que ocorre a perda de muitas funções. 

Adquirir a técnica da Dança tem apenas um fim. Esse é o de treinar o corpo para responder a qualquer exigência do espírito que tenha a visão do que quer dizer. O problema é que nem sempre o corpo é lúcido o suficiente para alcançar a sua plena expressividade sem gerar traumas. 

Por todo esse despertar, o método Pilates se encaixa perfeitamente na vida do bailarino como uma atividade complementar necessária. Tudo isso uma vez que a técnica é eficiente na reabilitação de lesões bem como na prevenção das mesmas. Sempre através do trabalho direcionado à complexidade de cada corpo existente. Assim o Pilates vem contribuindo de forma eficaz para que o corpo do bailarino esteja perfeitamente consciente sobre seus limites e desperto acerca das suas necessidades de busca que vão além do fortalecimento muscular, equilíbrio, coordenação motora e flexibilidade, trata-se do encontro com respostas mais sustentáveis. 

O método Pilates identifica os freios que impedem os bailarinos de movimentarem-se com qualidade e quantidade satisfatória impedindo o mesmo de sustentar posturas e atingir níveis de força e potência condizentes com as demandas das atividades que realizam no dia a dia. 

A partir de uma nova configuração, onde são identificados equívocos e promovido ajustes o novo treinamento também requer pratica e repetições, mas, nesta nova configuração existe também um novo propósito:  a busca por um potencial com mais eficiência, ou a restauração de uma eficiência perdida. 

Existem afinidades entre os princípios do Método Pilates e da Dança

Na Dança Moderna de Martha Graham, por exemplo, os princípios fundamentais da técnica são: respiração, os pares contração e “release” e centro motor e de expressividade. 

Aspectos responsáveis pela harmonização do organismo durante a prática. 

A partir destes pilares foram desenvolvidos temas que tinham como foco principal o Universo das emoções, tendo como base um diálogo criativo e um notável vocabulário técnico diversificado, complexo, extenso e sistematizado que exigia além da disciplina e da concentração muita habilidade e domínio corporal configurando a síntese das raízes que abrangeram a dança livre e a dança de expressão. 

Através da imersão na abundância interior o movimento ocupa seu lugar de forma expressiva e única no espaço. 

 Concentração: 

Na Dança, desde cedo, exercitamos a concentração através de uma disciplina chamada “Criatividade”, onde a inteligência e o talento são estimulados. É ali que o bailarino se desenvolve artisticamente e aprende a se conectar com seu mundo interior, realizando os movimentos com disciplina e muita atenção. 

 Assim ocorre na prática do Pilates, onde a partir da conexão com seu mundo interior é estimulado um processo psíquico que consiste, sem dúvida, em centrar voluntariamente toda a atenção da mente sobre o objetivo que está sendo feito no momento presente.   

Curiosidade: 

Outra característica similar entre Pilates e a Dança é a importância dos trabalhos de floorwork, carro chefe da Dança Moderna, realizado no solo, que possibilita um trabalho mais consistente de coluna e de quadril, sem a preocupação de manter o equilíbrio exigido nas posições verticais, levando a atenção maior a importância da ativação do centro motor e de expressividade. 

Diferentes tipos de aquecimento e alongamento, tais como “Bounces” (movimentos de anteversão e retroversão da pelve) também trabalham um raciocínio em comum, o de construir e aumentar a flexibilidade da coluna e do quadril que é considerado o motor do movimento até alcançar the “First Seated Position” (primeira posição sentada sobre os ísquios) 

Centralização: 

No Pilates a centralização, ou o tão conhecido Power House é tecnicamente composto por um conjunto de músculos que quando ativados de forma correta estabilizam a coluna e dão sustentação a uma postura mais correta e estável tornando os movimentos mais efetivos e fluidos no alcance das oposições. Mas esta ativação vai muito além de um entendimento técnico e a Dança Moderna complementa bem essa linha de raciocínio. 

A escola de Graham em Nova York foi denominada “ a casa da verdade pélvica” onde a ativação do centro motor e de expressividade englobam os mesmos músculos que compõem o Power House. Independente do movimento a ação primária dá-se pelo centro capaz de empoderar uma energia que é traduzida em ação, tornando todo indivíduo autor de uma expressão única. 

De forma técnica trabalha-se uma consciência sobre a profundidade interior durante o movimento para que o aspecto fundamental da prática de Graham dentro deste princípio seja mantido: evitar possíveis lesões através dos músculos estabilizadores e permitir um maior controle do peso e destreza do corpo como um todo. 

Precisão: 

Este princípio integra as funções visuais, auditivas, tátil-sinestésicas e proprioceptivas. 

A pratica do Pilates não abre espaço para a liberdade de um movimento que responde a qualquer exigência como a Dança, ele assegura que os movimentos sejam realizados dentro de ângulos adequados adaptando ajustes as necessidades funcionais ao mesmo tempo que respeitando as características morfológicas. 

A qualidade da precisão dos movimentos na pratica do Pilates diminui o desperdício de energia durante a execução dos exercícios, fazendo com que o praticante ao término das aulas se sinta com energia e sem desgaste. 

Na Dança os treinamentos são poéticos, expressivos e viscerais e pela intensidade da manifestação artística, tornam-se exaustivos. Sua ambição está em desvelar a Alma Humana através de uma linguagem que apesar da absoluta concentração e disciplina não impõe limites quanto aos ângulos. Nem tem como prioridade avaliar a individualidade e a especificidade funcional dos movimentos. 

Este é um dos princípios do método que mais contribui para a restauração do corpo e da mente dos bailarinos. 

Respiração: 

A respiração é o primeiro e o último ato da vida o qual prestamos pouca atenção, mantendo-o como uma função involuntária e muitas vezes deficiente. 

Para muitas filosofias é a chave para emancipação do próprio ser onde a partir da pratica consciente é criada uma ponte entre o eu individual e a alma Universal. 

Através deste processo somos capazes de gerar energia, expansão e consciência interna e progressivamente vamos aprendendo a utilizar nossa capacidade pulmonar até então adormecida. 

Apesar do método Pilates trazer consigo exercícios específicos considerados respiratórios, respirar bem e de forma natural é o que verdadeiramente contribui para a pratica. 

Respiração é vida, respirar bem é viver melhor! 

Quanto a Dança, além de ser considerada uma arte do movimento corporal, é também considerada a arte da respiração. 

Essa função desempenha um grande papel na eficácia plena da expressão através da relação entre atitudes internas e movimento. 

Assim é conhecida como respiração artística ou respiração controlada. Elevando assim a exigência do domínio físico para o uso racional do aparelho respiratório. Ademais passando por diversas alterações que vão de acordo com o propósito do contexto. Dando ritmo, fluidez e personalidade ao movimento. 

Fluidez: 

O princípio que mais revela a capacidade natural do indivíduo dominar a técnica. 

Posto que envolve movimentos refinados que são realizados com harmonia e com extrema elegância. 

E ademais evidenciam autoconfiança promovendo a total ligação entre o mundo interno e o mundo externo. 

O corpo que se une ao ritmo da vida, minimizando energia e sendo estimulado de forma branda e equilibrada. 

Para os bailarinos fluidez é sinônimo de graça e suavidade, onde os movimentos são treinados de forma incansável para parecerem fáceis. “O difícil é fingir que é fácil”. 

Já o método Pilates, apesar de vigoroso, aborda um conceito muito mais integrativo, levando em conta que cada um é um conjunto de corpo, mente e espírito, mas muito singular em suas necessidades e manifestações. 

“Os movimentos do Pilates são orgânicos” 

Controle: 

Controle = Concentração + Centralização 

É quase como atravessar um vento forte com o tronco alinhado…. 

Como conduzir com elegância o destino dos nossos movimentos durante uma tempestade… 

Amalgamar corpo e mente e dominar os nossos infinitos impulsos… 

Sobre como ter a compreensão sobre os nossos propósitos e de como proceder para realiza-los com segurança. 

“É a mente que esculpe o corpo” – ( Joseph Pilates) 

Em conclusão, pilates resgata Bailarinos… eu fui resgatada! 

Os bailarinos representam uma arte com auto expressão lutando para ser absoluta com movimentos significantes que surgem no âmago do seu ser. 

Já o método Pilates trabalha com movimentos que revelam significados, resgatando bailarinos mergulhados nas batalhas tortuosas comandadas pela cultura dos excessos em busca da perfeição. 

Por certo: espero que esta matéria sobre a minha experiência em ambas as técnicas tenha trazido reflexões. 

E desejo também que o encontro entre instrutores de Pilates e Bailarinos seja sempre como um encontro de Almas.. Que se complementam e germinam novos e híbridos processos de completo equilíbrio entre corpo, mente e espírito. 

Gabriela Andrezzo
@palcopilates 

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