Um cavaleiro tem uma queda do cavalo em 1995, um trauma na região sacrolombar, fica limitado em montar na prova hípica conhecida como adestramento ou dressage. Sua recuperação requereu tratamento médico-fisioterápico intensivo para a competição. Um ano e meio depois, em 1997, fui indicado para fazer o recondicionamento físico desse atleta. Seu objetivo: classificar para os jogos olímpicos de Sydney/2000.
Buscamos entender a ação que ocorre entre os dois, cavaleiro e cavalo, e, baseado nas propriedades dinâmicas desses elementos, procuramos analisar de como os movimentos emergem e se organizam na busca de que se consiga atingir o objetivo, aquele que monta, sujeito comunicador corporal do que fazer, pelos movimentos das pernas e dos membros superiores no controle pelo cabresto e, o destaque do conjunto, o cavalo, que apresenta habilidades variadas em deslocamentos ou no lugar.
As intervenções estavam relacionadas mais com o cavaleiro que, pelas intercorrências na sua coluna, necessitava recuperar a função motora e reaprender as etapas, o seu controle motor. Lembremos que recuperar a função refere-se à recuperação das habilidades motoras perdidas devido à lesão (Carr & Shepherd, 2003), enquanto aprendizagem motora é descrita como sendo os processos associados à prática ou à experiência que leva as mudanças relativamente permanentes na capacidade de produzir ações hábeis (Woolacot & CooK, 2003). O controle motor é a capacidade de regular ou orientar os mecanismos essenciais para o movimento. O desempenho funcional de habilidades motoras envolve a organização dos músculos do corpo, o que nos permite atingir a meta da habilidade em questão. Nessa organização é que baseia a definição de coordenação. (Carr & Shepherd, 2003)
Embora o ponto crucial aqui, pareça ser regional, a limitação dos movimentos na coluna lombar/sacro, consideramos que o movimento é um sistema composto de vários elementos, cada um dos quais tem uma função básica e relativamente única, que é necessária para a produção e regulação das nossas ações.
A base pelo qual se dá as ocorrências das ações é o sistema músculos esquelético, sendo os movimentos modulado pelo sistema nervoso, regulando esses movimentos mediante controle dos padrões e características da ativação muscular, respeitando a biomecânica tanto estática como dinâmica. A sustentação das ações se dá pelos sistemas cardio, respiratório e metabólico, proporcionando os substratos e aportes metabólicos necessários para manter a viabilidade dos demais sistemas. (Sahrmann, Shirley, 2009). A melhoria no desempenho motor se dá quando conseguimos uma regularidade e variações nas direções do movimento nas diferentes articulações.
Bem, essa prova requer um bom controle corporal global, uma vez que a exigência física. se concentra nas ações do quadril e pernas juntamente com a de cintura escapular e braços, regiões corporais de sincronização com o cavalo. Ao mesmo tempo o cavaleiro deve apresentar boa postura nas evoluções e comunicar elegância aos olhos dos observadores.
Coincidentemente, nesse mesmo 1997, estávamos frequentando o programa para a formação de instrutores no Método Contrologia, criado por Joseph Pilates.
A cada experiência vivida sentia uma grande relação com as práticas e exigências motoras do cavaleiro em questão.
Partimos para as práticas. O atleta progrediu com determinação nos processos do mat, precisava estruturar o controle motor tornozelo-pé, o foot corrector foi fundamental. Aprendeu a utilizar com os princípios da metodologia o magic-circle. Na sua globalidade e dinâmica com o cavalo, foi visível a evolução na sincronia com o cavalo.
Em 1999 meta primeira cumprida, veio a classificação para os Jogos Olímpicos de Sydney/2000.
Cavalos brasileiros precisavam fazer quarentena para participar dos jogos. Viajamos com bastante antecedência. Afinal, a cumplicidade cavaleiro/cavalo precisaria ser mantida e até melhorada. Seguimos com a preparação corporal em uma academia. Logo no segundo dia, realizando mat, um dos profissionais me aborda perguntando “estás utilizando Pilates?”, “esse senhor é atleta?”. Após algum diálogo me perguntou “conhece a abordagem Pilates para atleta, bastante discutida aqui na Austrália e Nova-Zelândia? inclusive estudos que desenvolvemos sobre a Contrologia?”. Nos tornamos próximos e o colega passou a me entregar cópias, em DVDs, sobre essa proposta. Compartilhou um interessante site da Nova Zelândia, linda experiência, útil para o futuro que viria.
Em 2003, a convite do José Roberto Guimarães, que já havia incorporado os valores da Contrologia, assumimos a preparação física da Seleção Brasileira de Voleibol. O gerente da CBV questionou se haveria alguma metodologia que desenvolvesse a inteligência motora das atletas através do ciclo percepção-ação-cognição, que ampliasse o repertório e a dinâmica dos movimentos, que melhorasse o controle das ações e, que estivesse a serviço da otimização do desempenho tanto técnico como tático. Pensei sim é possível, mas, verbalizei com “com certeza”.

O processo em praticar o mat foi incluído na preparação em todas as etapas. Fazia falta contarmos com os aparelhos, quando a Metalife nos brindou, colocando em Saquarema dois reformes (1 Tower), 1 Chair, 1 Barrel e implementos. Hoje, onde a Seleção treina, esses equipamentos foram gentilmente colocados pela MetaLife Pilates. No momento, estamos em preparação para os Jogos de Paris, no Sportville Centro de Treinamento onde contamos com a estrutura desses aparelhos. Teremos, também, a estrutura para emprego do Método Pilates em Paris, em nosso local de treinamento.
Podemos afirmar que, no geral, as atletas da Seleção Brasileira de Voleibol de todos os tempos praticam o Método, em todas as etapas que compõe o ciclo de uma temporada.
Sem dúvidas, é possível fazermos uma lista dos vários benefícios do Método Pilates, quer na etapa preparatória, quando a atleta busca manter ou resgatar sua funcionalidade, como prevenção na etapa transição e competitiva, quando se treina repetitivamente certos padrões, no desenvolvimento das técnicas e da tática e, também, se necessário, nos associar ao departamento médico como importante conteúdo na reabilitação do praticante. Salientamos aqui duas modalidades esportivas: o hipismo e o voleibol.
Finalizamos, destacando que os princípios do Método, na sua prática constante, possibilitam sim, com o desenvolvimento da inteligência motora das atletas através do ciclo percepção-ação-cognição (aqui corrobora com a colocação “integração corpo-mente”), ampliar o repertório e a dinâmica dos movimentos, melhorar o controle das ações e, está a serviço da otimização do desempenho tanto técnico como tático.
“Performance é ir além do que é esperado; é estabelecer os mais altos padrões pessoais, que excedam o que os outros exigem ou esperam. Isso é obviamente, a expressão do potencial de uma pessoa.”
In, Whitmore, J.. COACHING: para aprimorar o desempenho. Clio Editora, São Paulo, 2012.
Função, é definida como uma atividade complexa do nosso organismo, como um todo, direcionado à realização de uma tarefa comportamental. É considerada ideal quando os comportamentos são eficientes para cumprir os objetivos da tarefa em um ambiente relevante.
Condicionar a funcionalidade é empregar conteúdos e estratégias para aumentar a capacidade do nosso organismo para suportar as nossas demandas exigidas no dia a dia.
Shumway-Cook, A. & Woollacott, M.H.. Controle Motor: Teoria e Aplicações práticas. Barueri, SP, Editora Manole, 2003
Os movimentos são controlados pelo cérebro, não só os músculos
Os padrões motores podem ser alterados através de aplicações de estimulação sensorial, principalmente a de via aferente proprioceptivas.
Há uma hierarquia no SNC, organizado de maneira que os centros superiores comandam os inferiores.
Perspectiva do controle motor: abordagem orientada para a atividade.
Carr, J. & Shepherd, R.. Ciência do Movimento: fundamentos para a Fisioterapia na Reabilitação. Barueri, SP, Editora Manole, 2003.
Sahrmann, Shirley. Diagnóstico e Tratamento das Síndromes de Disfunção dos Movimentos. Santos Editora, São Paulo, 2009.
Autor: José Elias de Proença, preparador físico da Seleção Brasileira de Vôlei Feminino.