Joseph treinador ou educador?

No último artigo publicado (confira aqui), abordei a mudança de paradigma que Joseph Pilates propunha a partir de uma perspectiva de saúde baseada na educação para o movimento consciente. No final do texto indiquei a leitura dos capítulos 2 e 3 do livro YOUR HEALTH (1934) e destaquei o tema que iria abordar neste texto: o problema da separação corpo e mente.

Entretanto, relendo o capítulo 2, Saúde – uma condição normal e natural, deparei-me com uma denúncia, feita por Joseph Pilates, direcionada aos “especialistas” em saúde de sua época, que ainda hoje se faz extremamente relevante e necessária. Neste caso, decidi adiar um pouco o tema prometido para hoje, porém, por considerar a problematização da unidade corpo-mente como o tema central de sua obra e de seu método, prometo ao leitor que dedicarei os três próximos textos ao assunto. Por agora, peço que atente-se para essa importante denúncia, veja:

“Enquanto homens de negócios agora entendem completamente a ideia de que todo homem é o arquiteto de sua própria felicidade, eles também aprendem que a felicidade é primariamente dependente da saúde normal, e não se dá por si mesma, a partir da mera obtenção de uma posição social ou de riqueza monetária. Eles aprenderam a partir da experiência prática. Não seria natural esperar que nessas circunstâncias convidativas, os assim chamados especialistas, normalmente charlatões, proprietários de patentes de medicamentos e fabricantes de vários tipos de aparelhos mecânicos – lâmpadas, cilindros, divãs de massagem, sofisticadas máquinas para ginástica, panaceias, soros, e outras injeções – devam, por meio de seus anúncios, enganar os fracos? Tais tratamentos não só falham em alcançar os resultados desejados, mas em muitos casos fazem na verdade mais mal do que bem – entretanto, sempre trazem benefícios para os anunciantes, às custas de suas inocentes vítimas.” (pg. 36)

O que me chamou a atenção nessa citação foi a consciência de Joseph Pilates para uma intrincada relação entre produção de valores e modos de vida “bem-sucedidos”, uma certa ideia de progresso e modernização, e o conceito de saúde.

Ora, a primeira denúncia enfatizada por Joseph foi a associação direta, simplista e ingênua entre felicidade e status financeiro e social assumido pelo modo de vida dos “homens de negócio”, das três primeiras décadas do século XX. É bom lembrar que falamos de um período histórico extremamente turbulento do ponto de vista social, político e econômico, principalmente pelo advento da primeira guerra mundial (1914-1918) e, posteriormente, com a quebra da bolsa de Nova Iorque (1929).

Dentro deste contexto, o trabalho ordenado era visto como a única forma legítima de obtenção de sucesso: os papéis sociais eram muito claramente definidos pela moral burguesa e incorporados por um conjunto amplo de instituições como fábricas, escolas, igreja, e a família.

A segunda parte da citação refere-se a todo tipo de oferta de cura das mais variadas mazelas que acometiam a saúde da sociedade das primeiras décadas do século XX, por assumir um modo de vida baseado em valores relativos a tais ideais.

A sagacidade de Joseph Pilates estava na percepção do mecanismo sutil e engenhoso de um sistema que se retroalimentava vendendo a “cura” para um modo de vida baseado em valores que ele mesmo produzia. Talvez a vida contemporânea, em sua interface com os ideais do consumo, guarde certa proximidade com este cenário. O curioso aqui é a significativa transformação realizada sobre a vida das pessoas, em nosso atual momento histórico, com o crescimento de uma instituição específica: a mídia.

A mídia de massa, no desempenho da sua suprema e praticamente irrestrita missão publicitária, segue fabricando os modelos ideais de homem-consumidor e no campo da saúde essa ação também se faz presente.

Para o homem moderno se manter saudável ele consome todo tipo de produto: cosméticos, alimentos funcionais, seguros, tratamentos estéticos, atividades da moda, remédios, hormônios e em última instância um estilo de vida. A pergunta relevante a ser feita aqui é a seguinte: Qual o lugar que o Pilates assume nesse complexo cenário atual?

A relevância dessa pergunta sugere outras: será que o Pilates não vem se tornando mais uma atividade da moda, sem nenhum tipo de ação propositiva de educação em saúde? Se Joseph Pilates estivesse vivo, nos dias de hoje, qual seria sua crítica e como encaminharia o seu método? O professor de Pilates tem consciência do engajamento histórico, político e social de Joseph Pilates para a criação de sua metodologia? Como operar uma mudança de mentalidade e paradigma se nossos centros de formação e certificação em Pilates valorizam apenas a dimensão biológica do corpo?

Na minha visão, mais do que um simples treinador, Joseph Pilates sempre se posicionou como um educador. Isso significa que ele possuía uma visão ampla sobre o contexto da sociedade de sua época, tinha claro para si quais eram os principais problemas a serem enfrentados, e encaminhou seus esforços para tal finalidade utilizando sua metodologia como um veículo para o processo educacional, não apenas do corpo das pessoas, mas sim do sujeito em sua totalidade.

Um ótimo 2015 a todos!

Alexandre Luzzi
Educador físico (Cref: 025495)
Sócio proprietário da Escola de Pilates clássico TAI KEN

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