A Doença de Alzheimer e o Método Pilates- uma alternativa para o cuidado das pessoas com demência

Num asilo, vive um casal, o homem, que lá está por opção, lê todos os dias a mesma história de amor de um casal de adolescentes para sua mulher que sofre da Doença de Alzheimer. Ele lhe conta sempre a mesma história, o mesmo capítulo, e todos os dias ela ouve como se nunca tivesse ouvido antes, e se encanta com o enredo, sem se dar conta não só de ser a mesma história todos os dias, mas que é na verdade a história dela com seu companheiro. Para seu companheiro, a leitura diária da mesma história é uma tentativa vã de fazer com que ela lembre de sua vida com ele. Ao final, lhe basta que ela se encante com o romance ainda que momentaneamente[1]. Esta é a realidade de uma pessoa que sofre da Doença de Alzheimer e dos com que ela convive. De modo genérico, a Doença de Alzheimer está na classe dos transtornos que levam à demência com um crescimento assustador na população com o aumento da expectativa de vida.

A Doença de Alzheimer (DA) é um transtorno progressivo e irreversível no cérebro por dano e morte dos neurônios, o resultado é a perda gradual de memória acompanhada da perda da consciência de si próprio e das pessoas, em particular as de convívio familiar e do círculo de amizades. Nesse sentido, a DA é devastadora em seus estágios mais avançados levando inclusive a incapacidade de realizar as atividades mais simples da vida diária. Seu custo humano e social é alto assim como o custo econômico (Ortiz et al. 2020), O prejuízo para a qualidade de vida atinge a todos: paciente, cuidadores, familiares. O paciente normalmente é pessoa muito próxima que de uma hora para outra se torna alguém estranho, com dificuldade de linguagem, de entendimento e de atenção, com mudança de humor, gestual e com hábitos modificados, muitas vezes sem nenhuma mudança física tão aparente. O fato é que a DA se caracteriza por uma grande perda da identidade.

Alzheimer & Exercício Físico

Há muitos anos tem se falado da importância do exercício físico como elemento não medicamentoso para várias patologias, inclusive as neurológicas e psiquiátricas. Num congresso recente de psiquiatria ocorrido em New York, especialistas destacaram a importância do exercício físico, o aeróbico e o resistido, para “influenciar positivamente a cognição, incluindo a redução do risco de declínio cognitivo relacionado à idade e demência” (Alty J et al. 2020).  Como se sabe a inatividade física é um dos fatores de risco que mais contribui para a taxa de mortalidade da população havendo uma estimativa do que esse fator contribui para cerca de 5 milhões de mortes anuais no mundo decorrentes de doenças crônicas não transmissíveis. A Demência cresce assustadoramente com o aumento da expectativa de vida enquanto o a Doença de Alzheimer (DA) cresce em disparada frente às outras patologias.

Mansur et al. (2005) descreve três estágios da Doença de Alzheimer que duram em média  2 anos: o primeiro dominado pelas alterações de memória podendo acometer a linguagem; no segundo há perdas mais gerais, como praxias, gnosias, função executiva, capacidade de resolução de problemas, com impacto mais notável na vida cotidiana; o terceiro é caracterizado pela restrição, perda de autonomia e independência, sendo o paciente incapaz de gerenciar o auto cuidado, a alimentação, higiene e comunicação. Os fatores de risco associados à DA são, além do próprio envelhecimento, a hipertensão na meia-idade, a perda auditiva, diabetes, distúrbios do sono, depressão na terceira idade, estilo de vida, tabagismo, genética, nível educacional baixo, lesões cerebrais prévias, baixo nível de atividade física, isolamento social e ser do sexo feminino devido às mudanças hormonais típicas na mulher na passagem da meia idade.

Com o aumento da expectativa de vida, várias doenças como a de Alzheimer tem aparecido com mais frequência, apesar de alguns estudos não associarem a DA ao envelhecimento e sim às doenças autoimunes (De la Rosa et al.2020), mas essa indicação carece de confirmação. Encontramos estudos apontando que o envelhecimento no Sistema Nervoso Central (SNC) é caracterizado por uma deterioração progressiva não apenas da função cognitiva memória, linguagem, habilidades visuoespaciais, atenção, velocidade de percepção e por diversos distúrbios cerebrais, como amnésia, agnosia, apraxia e afasia, mas também pela perda e da capacidade funcional.

Por ser uma doença com o caráter multifatorial, o cuidado com a DA requer profissionais para o enfrentamento positivo da doença. Lembrando que o portador da DA, não é um idoso comum com as características básicas de declínio funcional, mas um quadro complexo e heterogêneo que necessita de muitos estudos e experiência dos profissionais de saúde e movimento. Cientistas alertam que “Vinte e quatro milhões de pessoas no mundo sofrem da DA. Estima-se que até 2050 esse número seja 4 vezes maior (De la Rosa et al.2020). Com o aumento   da expectativa de vida nos próximos 25 anos, a população com mais de 65 anos será 3 vezes maior do que era em 2010, chegando a cerca de 1,5 bilhão de pessoas.  Andrade e colaboradores (2024) estimam que o número de pessoas com demência aumentaria de 57,4 milhões de casos em todo o mundo em 2019 para 152,8 milhões de casos em 2050. Esses autores alertam que a DA é um grande problema de saúde, com uma necessidade urgente de identificação de novos alvos terapêuticos, ou rapidez no diagnóstico precoce, dada sua crescente incidência e elevado impacto social constituindo um campo de trabalho enorme para atuação de especialistas e profissionais de saúde.

Método Pilates e a Doença de Alzheimer

A importância dos exercícios físicos para combater os efeitos da senilidade é reconhecido. Todavia, não há um consenso sobre a indicação de determinados exercícios ou métodos por se considerar que “a depressão, ansiedade e a dificuldade de compreensão dos exercícios são os fatores que comprometem a participação da pessoa idosa com Alzheimer nessas práticas… (sendo esses fatores) os principais preditores dos prejuízos para o desenvolvimento perceptivo-motor”, (Andrade, Ide et al. 2024).

O Método Pilates desenvolvido nos Estados Unidos há mais de cem anos por Joseph Hubertus Pilates baseado na conexão do corpo, mente e espírito e assim podemos considerá-lo como uma alternativa para pessoas cuja integridade mental é “fraturada” como na DA.  Joseph Pilates teve vários seguidores que desenvolveram repertórios de práticas com base em suas ideias e vivências. Esse foi o caso da Eve Gentry que teve câncer de mama e incluiu em seu tratamento os exercícios do Método Pilates que seriam menos desafiadores criando assim o que denominou de Pilates Clínico. Essa variação do Método Pilates tem sido indicada para várias patologias visto ser uma forma de exercício físico resistido de reconhecida relevância terapêutica para diversas doenças e pelas características do repertório constituir-se na simulação de atividades funcionais contribuindo para a qualidade da vida diária. Essa variação do Método Pilates considera a orientação corporal – para com as forças de reação do solo e os marcos físicos do ambiente em que se vive – como caminho para dar ao paciente maior funcionalidade c conforto ao deambular no espaço físico e social sendo fulcral para reeducação funcional.

O Pilates clínico contém hoje o estudo das ciências da neurolinguística, aprendizagem motora, medicina energética, biomecânica, somática etc. O Método Pilates e suas variações envolve muito mais do que exercício físico resistido porque suas rotinas de execução permitem uma maior contextualização dos movimentos no espaço pessoal do paciente – com a organização e sincronia de seus eixos e planos corporais – e no espaço social em que ele ou ela vive. É nesse sentido que o Método Pilates contribui para reeducar a função nas atividades de vida diária. Por essas características, o Método Pilates pode ser uma excelente adição ao conjunto terapêutico que compõe o tratamento da Doença de Alzheimer. É importante que o profissional considere que as restrições

encontradas na literatura científica se devem às dificuldades que pacientes podem apresentar para compreender as instruções para cada exercício. Isso pode levar à falta de adesão e compreensão das atividades propostas (Andrade A, Ide F; 2024). Novamente cabe ao profissional adequar sua instrução a cada caso e lembrar que toda prática é sempre um processo de comunicação entre o profissional e o praticante. O ajuste do canal de comunicação é sempre possível criando possibilidades de realização.

Pensar em um programa de exercícios com o quadro de demência não é uma tarefa fácil. Como toda intervenção que se deseja realizar, o profissional deve dar grande atenção não só ao quadro clínico, mas às avaliações antes de começar a prática do Método Pilates com segurança. As pessoas podem ser avaliadas com várias escalas como:

  • Tinetti Balance Subscale[2], que é uma ferramenta para avaliar anormalidades no equilíbrio e na marcha de indivíduos;
  • The Walking and Talking Test[3], que avalia o risco de queda, do Time Up Go, que avalia quantitativamente a mobilidade, o equilíbrio estático, e o equilíbrio dinâmico;
  • Bergan Balance Scale[4], que consiste em uma ferramenta de avaliação de equilíbrio e a caminhada de seis minutos.

A utilização da música como terapia complementar no tratamento de pacientes com Doença de Alzheimer tem se mostrado uma ferramenta poderosa. Ela não apenas melhora a função cognitiva e o resgate de memórias, como também é um estímulo ao convívio social e às mudanças comportamentais. Apesar do comprometimento cerebral na DA, o cérebro parece registrar o ato de ouvir música como um processo diferente de lembrar-se de algo. Isso sugere que com essa prática se pode acessar diferentes redes cerebrais. Segundo Corrêa at al. “A memória musical parece ser uma importante ferramenta que os profissionais da saúde dispõem para intervir no avanço da DA”. Acredita-se que a conservação da memória musical decorra do fato do “armazenamento da música ocorrer em áreas cerebrais diferentes das demais lembranças, de modo a estabelecer relação de forma independente com os sistemas de memória”. A memória associa-se articuladamente com momentos vivenciados há? tempos e ao serem despertados, por meio de lembranças, são capazes de despertar sentimentos aos indivíduos. A recuperação de eventos por meio de estímulos traz consigo cargas emocionais associadas, o que, de certa forma, explicaria o armazenamento indestrutível de momentos de forte emoção no cérebro. Neste caso, o Método Pilates poderia ser associado a um ambiente com o uso dos artifícios da música e assim criar a possibilidade de ampliar os benefícios da prática.

Muito tem se falado da dança como atividade que trabalha o ritmo, o equilíbrio, a coordenação motora, as curvas, linhas retas, deslocamento de eixo do tronco, além de manter os indivíduos motivados provocando ativação de circuitos neuronais em pacientes de várias condições, além de mudar estados de humor. A dança é uma expressão cultural universal do ser humano que atravessa a barreira do tempo, motivando e mobilizando todas as faixas etárias. Quando a música e os movimentos corporais estão envolvidos, diversas regiões do cérebro são ativadas concomitantemente, promovendo a chance de neuroplasticidade e outros efeitos que são alvo de investigações de pesquisadores da área.

Orientações práticas na condução do Método Pilates e a DA

Considerando todas as características da Doença de Alzheimer, o trabalho com o Método Pilates teria que compreender um pouco da dança, música e todos os benefícios destas atividades, e com os seus próprios princípios de organização de movimento. Com a ajuda de molas, seja na assistência ou na resistência, de maior base de suporte para menor base de suporte, com a capacidade de escuta e resposta dentro do contexto de como se encontra a pessoa naquele dia.

O Método Pilates no trabalho com pessoas com a DA deve cuidar ser progressivo indo de um menor cumprimento de alavanca e menor Amplitude de Movimento (ADM) para buscar ritmos e velocidades diferentes e principalmente com os Hands on, que são tão inerentes ao método. Também podemos trabalhar com imitação (espelhamento), ludicidade, principalmente nas dicas verbais, e sempre segurando as barras como regra de segurança ou segurando a barra junto com a pessoa para ajudar a fazê-lo. Os benefícios de se trabalhar com o Método Pilates como flexibilidade, trofismo, interocepção, propriocepção e percepção háptica, entre outros podem se estender para o tratamento e cuidado para com a pessoa com DA.

A importância de criar um ambiente de compartilhamento com a Prática do Método Pilates

Todo trabalho e cuidado com a pessoa com a DA exige o diálogo com a família no sentido de conhecer sobre o presente e o futuro. É importante lembrar que a memória do passado as vezes permanece com algumas lembranças que podem ser trazidas à tona e assim servir de estímulo para o paciente. As vezes uma dança, um álbum de família podem ser utilizados nas dicas verbais funcionando num sistema alternativo do Método Pilates.

A condução da prática em Pilates com pessoas com comprometimento cognitivo devido à DA vai demandar a utilização de dicas táteis, os hands on mencionados acima. Em alguns casos, haverá a necessidade de realizar o exercício com a pessoa, criando possibilidades de que a observação do outro possa suscitar imagens e assim a imaginação da pessoa com DA. Assim, o Método Pilates com a pessoa com DA envolve: entrar no jogo de palavras para que haja identificação, seguir um trabalho assistido, com maior base de suporte e assistência de molas, mexer na velocidade e ritmo, enfocar o trabalho individual, mas incluir algumas vezes ambientes mais instrutores com seus pacientes.

Nunca é demais lembrar que estratégias devem ser modificadas de acordo com o paciente e o estado em que se encontra considerando alguns comportamentos típicos como agitação, agressividade, esquecimento, funções executivas comprometidas. O Método Pilates tem como característica a de ter um comando verbal e tátil. No caso do trabalho com pessoas que tenham a DA é importante que o profissional enfoque os estímulos táteis, o hands on, para funcionar como uma guia para a pessoa em movimento.

Palavras Finais

A DA é uma doença que cresce à medida que a expectativa de vida aumenta. Dentre seus fatores de risco está o estilo de vida principalmente o que envolve alto nível de sedentarismo. Esse quadro demanda cada vez mais a dedicação de programas de qualidade de vida que atuem para mitigar os efeitos dessa doença tão devastadora para a pessoa que é acometida e seus entes mais próximos. O exercício físico com demandas aeróbicas e de caráter resistido tem sido apontado como importantes para serem integrados nos modos de cuidado das pessoas com declínio cognitivo e com a DA. Por esse motivo, entendemos que o Método Pilates pode ser uma excelente opção de exercício físico. Embora exista uma carência de pesquisas clínicas sobre o efeito sobre a DA com a prática com o Método Pilates, estudos realizados com outros exercícios como os resistidos indicam a possibilidade de retardo dos sintomas ou de prevenção das doenças na velhice. Não há motivo para não se deduzir que o Método Pilates pode levar aos mesmos desfechos para o cuidado com a pessoa com DA. Como já é conhecido, esse método envolve uma mistura de exercícios resistidos ou assistidos e pode auxiliar na reeducação funcional. A realização dos vários exercícios dentro do Método Pilates coloca grande demanda no sequenciamento dos movimentos sincronizados com a respiração. Desse modo, o praticante percebe que cada exercício não exige mais força ou resistência e sim maior consciência corporal e com isso uma maior integração corpo-mente, mente-corpo. Para uma pessoa que tem a sua mente de certa forma obscurecida pela Doença de Alzheimer, o Método Pilates pode num certo sentido lançar luz à essa mente pelo com seu enfoque na globalidade e integralidade da pessoa, e pelas suas práticas que promovem a integração mente-corpo.

 

Selma França, Fisioterapeuta, Licenciada em Dança, Clínica de Dor, Mestrado em Medicina da Dança, Master trainer em Pilates há 27 anos. Pioneira do Pilates no Brasil desde 1992.

 Bibliografia

Alty J, Farrow M, Lawler K. Exercise and dementia prevention. Pract Neurol. 2020 May;20(3):234-240. doi: 10.1136/practneurol-2019-002335. Epub 2020 Jan 21. PMID: 31964800.

Andrade, A. et al. Métodos de exercícios físicos para pessoas idosas com Alzheimer e os fatores que dificultam a sua prática: uma revisão sistemática. Rev. bras. geriatr. gerontol. 27, 2024, https://doi.org/10.1590/1981-22562024027.240007.pt

Corrêa, L., Caparrol, A. J. de S., Martins, G., Iost Pavarini, S. C., & Martins Gratão, A. C.  Efeitos da música nas expressões corporais e faciais e nos sintomas psicológicos e comportamentais de idosos/Effects of music on body and facial expressions and psychological and behavioral symptoms of older adults. Cadernos Brasileiros De Terapia Ocupacional, 28(2), 539–553, 2020. https://doi.org/10.4322/2526-8910.ctoAO1889.

De la Rosa A, Olaso-Gonzalez G, Arc-Chagnaud C, Millan F, Salvador-Pascual A, García-Lucerga C, Blasco-Lafarga C, Garcia-Dominguez E, Carretero A, Correas AG, Viña J, Gomez-Cabrera MC. Physical exercise in the prevention and treatment of Alzheimer’s disease. J Sport Health Sci. 2020 Sep;9(5):394-404. doi: 10.1016/j.jshs.2020.01.004.  Epub 2020 Feb 4. PMID: 32780691; PMCID: PMC7498620.

López-Ortiz S, Valenzuela PL, Seisdedos MM, Morales JS, Vega T, Castillo-García A, Nisticò R, Mercuri NB, Lista S, Lucia A, Santos-Lozano A. Exercise interventions in Alzheimer’s disease: A systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Ageing Res Rev. 2021 Dec;72:101479. doi: 10.1016/j.arr.2021.101479. Epub 2021 Sep 30. PMID: 34601135.

Mansur, L., Carthery, M., Caramelli, P., Nitrini, R. Languagem and cognition in Alzheimer’s disease. Psicologia: Reflexão & Crítica, 18(3), Dez. 2005. https://doi.org/10.1590/S0102-79722005000300002 .

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[1] Esse trecho é uma adaptação de trechos do “The Notebook” de Nicholas Sparks de 1997 baseado em história real.

[2] Nesse vídeo se pode ter uma noção do teste Tinetti Balance Subscale: https://youtu.be/Ok9sDuJZ0TI?si=PWojsy4kNGKgmvem

[3] Aqui uma demonstração do Walking and Talking Test: https://youtu.be/1553q_7FjsY?si=UMcZN7PDgj0LzCgZ

[4] Nesse vídeo uma explicação do Bergan Balance Scale: https://youtu.be/mqr6nUb9X4k?si=riE89VIr_qfx8sal

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