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A arte atlética

Recentemente me peguei pensando na seguinte questão: o que diferencia a prática do Pilates clássico de outras modalidades de condicionamento físico e mental que também trabalham com os conceitos de centralização, concentração, respiração e o desenvolvimento corporal de forma integrada?

Talvez essa seja uma pergunta que não temos condição de responder simplesmente com respaldo no conhecimento teórico, como fisiologia, biomecânica, anatomia, etc. Essa é uma resposta que só pode ser dada a partir da experiência e vivência da modalidade.

Entender a metodologia do Pilates clássico não significa apenas uma compreensão intelectual de seus princípios e técnicas, mas sim a experiência da transformação do próprio corpo a partir da vivência sistemática conduzida por um professor que necessariamente tenha passado pelo processo.

Além disso, entender o método significa compreender uma passagem sutil e essencial que o faz ser diferente de outra modalidade de condicionamento físico.

Segundo ‘’Fiasca’’ (2012), a preocupação inicial do Pilates clássico é com os benefícios funcionais, porém essa é apenas uma primeira etapa, o que diferencia sua metodologia de outras atividades que promovem benefícios para a saúde é a transformação dos exercícios em uma “arte atlética”.

Essa passagem relaciona-se, necessariamente, com o princípio da fluidez. De todos os princípios do Pilates talvez esse seja o mais difícil de ser alcançado, pois resulta da integração dos cinco princípios anteriores: concentração, centralização, respiração, controle e precisão.

A fluidez associa-se ao aspecto expressivo da movimentação, que traduz o pensar e o sentir do praticante, engajado em um exercício consciente e repleto de significação – o oposto da exercitação mecânica e automatizada. No Pilates clássico não há tempo para a dualidade corpo/mente, nele o movimento torna-se pensamento e sentimento em ação.

É muito importante que o praticante tenha consciência que cada movimento possui uma história que traduz em uma linguagem não conceitual de gestos e imagens.

Sugiro ao leitor uma pequena experiência, tente contar ao seu aluno, antes de iniciar uma série de footwork no Reformer, que Joseph Pilates propõe variações de apoio dos pés (ponta dos pés, arco transverso e calcanhares) não apenas para promover mudanças de ângulos articulares e ações musculares, mas que essa variação é efeito da influência da terapêutica do extremo oriente, no caso aqui a reflexologia.

Tente perceber a mudança de sentido e significado que o aluno atribuirá a essa prática, depois de saber que Joseph Pilates imaginava estimular diferentes regiões do corpo: cintura escapular (ponta dos pés), órgãos da cavidade abdominal (arco transverso), cintura pélvica e membros inferiores (calcanhares).

É fundamental o entendimento que o Pilates clássico – a arte de movimentar e coordenar o corpo a mente e o espírito – se baseia em uma tradição oral de instrutores que vão transmitindo aos estudantes muito mais do que técnicas de exercícios, mas principalmente os valores de Joseph Pilates, sua história e sua visão de mundo.

Joseph Pilates foi um pesquisador incansável de tudo que se relacionava com a cultura corporal. Da observação dos movimentos dos animais, passando pela influência da ginástica calistênica, da força e tradição das artes marciais como o boxe e o Kung fu, na expressão e plasticidade da arte circense e da dança, indo até as tradições orientais como o Yoga.

Apesar de todas essas influências, o Pilates clássico não se resume a nenhuma delas, nem tão pouco se caracteriza por um agrupamento de técnicas de diferentes modalidades.

O trabalho de Joseph Pilates é intrigante pela sua originalidade. É muito triste observarmos a falta de consciência de muita gente que trabalha com o “Pilates” em relação à sutil diferença entre uma verdadeira prática de Pilates e a realização de exercícios funcionais em aparelhos de Pilates.

Esse texto, caro leitor, é um convite à reflexão para o compromisso minucioso de garimpagem de tudo aquilo que é essencial e atemporal no trabalho construído por Joseph Pilates, um verdadeiro patrimônio da humanidade que deve ser preservado e compartilhado com todos que tenham interesse.

Não deixe de pesquisar sobre a história de cada movimento e procure se aproximar de professores que carregam em seus corpos e em seus movimentos toda essa viva tradição. Boa prática!

“Pilates é poesia em movimento” (Romana Kryzanowska)

Alexandre Luzzi
Cref: 025495-G/SP
Sócio proprietário da empresa Espaço Tai Ken corpo & saúde

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